POR: ALBERTO JOÃO JARDIM
O que sucedeu
Paul Krugman escreveu que «durante os últimos anos, a comparação
entre os desenvolvimentos económicos na Europa e nos Estados Unidos tem
se assemelhado a uma corrida entre os mancos e os coxos – ou, se
preferirmos, um concurso para ver quem consegue asneirar mais na
resposta à crise».
A Europa estabeleceu uma moeda comum entre vários Estados. Com a
vantagem de baixar os custos económicos e assim facilitar o planeamento
económico, mas com a desvantagem de cada um desses Estados não poder
esgrimir a desvalorização da sua moeda para se ajustar a um choque
económico como actualmente se vive.
Mais. Só faz sentido os países terem uma moeda comum, se houver um grande volume de trocas comerciais entre si.
De facto os Estados do euro fazem sessenta por cento do seu comércio
entre si, mas falharam outros dois critérios importantes, a integração
orçamental e a mobilidade laboral.
De início, as dívidas dos países do sul europeu eram consideradas quase
tão seguras como as dos nórdicos. Os custos dos empréstimos foram tão
favoráveis que o que parecia um grande «boom» económico logo se
transformou num «boom» desastroso.
Porquê? Porque os bancos do sul não tinham depósitos suficientes para
sustentar todos os empréstimos que passaram a fazer, indo buscar esse
dinheiro, por empréstimo, ao núcleo financeiro forte europeu. Saíram
enormes massas de dinheiro do norte e centro europeus, para um sul então
em expansão económica.
Como explica Paul Krugman, «estas entradas de capital alimentaram
«booms» que por sua vez conduziram à subida dos salários: dez anos após a
criação do euro, os custos Unitários da mão-de-obra (salários ajustados
pela produtividade) subiram cerca de 35% no sul da Europa, em
comparação com uma subida de uns meros 9% na Alemanha. A produção no sul
da Europa deixou de ser competitiva, o que por sua vez levou os países
que estavam a atrair gigantescos influxos de dinheiro a começarem a
incorrer em défices comerciais igualmente gigantescos. E, de repente, o
euro teve de enfrentar um gigantesco choque assimétrico que se agravou
ainda mais devido à ausência de uma integração orçamental (...).
As receitas baixaram imenso, juntamente com baixas na produtividade e no
emprego;
os gastos com os subsídios de desemprego dispararam; e os Governos
ficaram na difícil situação de precisarem de efectuar dispendiosos
resgates bancários, já que tinham garantido não só os depósitos mas
também, em muitos casos, as dívidas em que os seus bancos tinham
incorrido junto de outros bancos em países credores. Por conseguinte, a
dívida pública e os défices dispararam e os investidores começaram a
ficar nervosos». Fim de citação.
O mesmo Krugman fala da «grande Ilusão da Europa»: a crença de que a
crise foi especialmente causada pelos enormes défices orçamentais e pelo
grande endividamento.
Ora, a crise resulta da ausência de integração orçamental na zona euro,
da pouca mobilidade territorial na Europa dos seus mercados laborais e
da falta de uma moeda própria.
Mas nem o Banco Central Europeu quis emitir muito mais moeda para o
ajustamento económico europeu, nem a Alemanha aceitou qualquer processo
inflacionista que até lhe poderia permitir chegar ao pleno emprego
também pela via do aumento da procura exterior das sua produções.
A Islândia sobreviveu ao desastre financeiro porque tinha moeda própria,
desvalorizou-a na altura oportuna (25% em relação ao euro) e recuperou a
competitividade pela baixa dos salários via inflação, sem lhes tocar.
Isto já não podem fazer os países em crise na zona euro, por falta de
moeda própria, com os défices a disparar, a mergulharem na deflação e
recessão, sujeitos às consequências do pânico generalizado dos
investidores que se querem salvar de um incumprimento da dívida.
E volto ao Professor Krugman: «Os Governos dependem da sua capacidade de
renovar grande parte desta dívida, vendendo novas obrigações para pagar
as anteriores. Se, por alguma razão, os investidores se recusassem a
comprar novas obrigações, mesmo um Governo basicamente solvente poderia
cair no incumprimento.(...)
(...) Poderia acontecer a qualquer um dos países que agora fazem parte
da zona euro, que não podem contar com o Banco Central Europeu para lhes
prover dinheiro numa emergência. E se um país da zona euro se visse
forçado ao incumprimento por causa deste tipo de escassez de dinheiro,
poderia nunca mais conseguir pagar a totalidade das suas dívidas.
Isto cria imediatamente a possibilidade de uma crise autorrealizável, na
qual os receios dos investidores quanto a um incumprimento em resultado
da escassez de dinheiro, os levariam a evitar adquirir obrigações desse
país, desencadeando assim a própria escassez de dinheiro que tanto
receiam». Fim de citação.
Claro que qualquer país romper agora com o euro:
-apanhava com uma corrida insustentável aos seus bancos;
-o regresso da moeda nacional acarretaria prejuízos graves em relação ao
valor dos depósitos, às dívidas e aos contratos em euros;
-comprometeria o futuro da Europa e algumas das suas próprias democracias.
Para evitar isto:
-o Banco Central Europeu (BCE) tem de produzir mais moeda e intervir
mais, sobretudo comprando obrigações dos Governos da zona euro, para
garantir que não haverá pânico nos mercados porque, assim, os Governos
não vão ficar insolventes;
-mais competitividade, com um aumento da procura de bens por parte dos
países com excedentes orçamentais, sobre os países com défices
orçamentais;
-uma inflação moderada (nunca superior a 5%);
-mais disciplina orçamental nos países em dificuldade, cortando nas
«gorduras do Estado», em vez de diminuir a capacidade da procura.
E termino, voltando a transcrever Paul Krugman: «os casos mais extremos -
Grécia, Portugal e Irlanda – continuam impedidos de aceder aos mercados
de capital privado. Por conseguinte, têm dependido de uma série de
programas de empréstimo criados de improviso pela «troika» constituída
por governos europeus mais fortes, pelo BCE e pelo Fundo Monetário
Internacional. Infelizmente a «troika» tem fornecido pouquíssimo
dinheiro e demasiado tardiamente. E, em resultado destes empréstimos de
emergência, tem-se exigido aos países deficitários que imponham
programas imediatos e draconianos de cortes nos gastos e subidas de
impostos, programas que os afunda em recessões ainda mais profundas e
que são insuficientes mesmo em termos puramente orçamentais à medida que
os economias encolhem e causam uma baixa de receitas fiscais.
Entretanto, nada tem sido feito para providenciar um ambiente em que os
países deficitários possam dispor de um caminho plausível rumo à
recuperação da sua competitividade. E à medida que os países
deficitários são empurrados para uma austeridade selvagem, os países
excedentários têm-se empenhado em programas próprios de austeridade,
minando assim as esperanças de um crescimento das exportações. E, longe
de aceitar a necessidade de uma inflação ligeiramente superior, o Banco
Central Europeu ainda subiu as taxas de juro na primeira metade de 2011
para evitar a ameaça de inflação que existia nas mentes dos seus
dirigentes, só posteriormente invertidas essas taxas, após grandes danos
causados».